Momento : Aquela paz- Charlie Bown Jr.
“Lidei com coisas que eu jamais entenderei, ah se eu pudesse estar em paz, me livrar do pesadelo de vê-lo nesse estado e não poder ajudá-lo não...Mas triste é não poder mudar porque estás tão revoltado irmão?”
Desde os 4 anos , que acho que é quando começamos a ter idéia das coisas e aproveitar todo e qualquer conhecimento que nos é passado , tenho como referência fiel a minha família, mesmo sabendo que ela é só bonitinha no álbum,mesmo com seus grandes defeitos , eu amo cada integrante de uma forma única, e tenho a certeza que no fundo toda família é assim, por mais que os defeitos sejam maiores do que as qualidades, consigo sentir um amor que eu pensava que jamais pudesse sentir por qualquer pessoa .
Mas é claro que tem aqueles parentes que só encontramos em uma data especial, tem também os que às vezes visitamos e passamos boas horas e aqueles que moram, convivem, estão todos os dias perto de você, aqueles que te conhecem nos quase mínimos detalhes, que irão ver seus momentos de tristeza, sua alegria ao realizar um sonho e que no meu caso, durante muito tempo foram meu irmão e minha mãe, atualmente moro com um tio, mas durante a minha infância , esses dois ,mãe e irmão foram mesmo que ausentes , as pessoas mais presentes na minha vida, porque moravam comigo.
Minha mãe, trabalhava dia e noite , meu irmão também trabalhava, é, ao contrário do que pensam não nasci em berço de ouro e meu irmão começou a trabalhar com 12 anos, mais paara se manter do que para ajudar em casa, porque minha mãe nunca nos cobrou isso,e nunca deixou faltar nada que a gente realmente quisesse, ela sempre foi minha heroína e meu irmão meu herói , nunca os via direito e quando via , eu tinha vergonha de dar beijos e abraços , de conversar, e por isso também não tinha o retorno, tudo era frio demais externamente, mas a cada dia que eu estava em casa e eles chegavam do trabalho,conversando, felizes, eu sentia um prazer inexplicável, por mais que não participasse por não querer, admirar já era o suficiente.
Eu sempre gostei muito do meu irmão, e é dele que talvez hoje eu vou contar um pouco, não sou uma blogueira compulsiva, que vai postar todos os dias, mas a necessidade de FALAR dele é muito grande, e talvez você nem precise entender o motivo disso.
Ele estudava demanhã e trabalhava a noite (a rotina que eu tenho agora), e a tarde só ficava em casa dormindo, só na hora do almoço que ele acordava , mas aí minha mãe e ele começavam a conversar e ele nem voltava mais pra cama , fica até dar a hora de sair mais uma vez pra trabalhar, nos dias que eu chegava da escola e ele dizia que estava de folga, eu ficava muito feliz, eu gostava de ver ele.
Todas as menininhas que conhecia também gostavam, sempre aparecia uma namorada diferente em casa e eu tinha o carinhoso apelido de” Cunhada”, ele nunca foi bonito, mas que ele tinha charme e um bom papo acho que eu sempre soube, eu ficava totalmente convencida por isso, por ter um irmão tão legal, gostava de mostrar pra todo mundo, mas no primeiro comentário que faziam, eu já preferia ficar calada, na verdade, eu odiava todo mundo que tentasse se aproximar dele, e tinha aquele sentimento de posse fora do normal, típico de menina MUITO mimada, como eu era, mas nunca demonstrava , o máximo que eu fazia era rir e mudar de assunto, mas no fundo queria matar todas as namoradas dele, ele era o orgulho de toda a família e eu sempre senti isso : que ele tinha que ser só nosso, só de quem se orgulhasse dele.
Eu sempre sofri muito na escola, criança quando quer destruir a considerada inferior é pior que o capeta e eu era a “inferior” para elas, era a menor, magrelinha, com os cabelos sempre tampando o rosto e com os livros na mão pra esconder o que o cabelo não conseguia,e ainda era fanha por causa de vários problemas respiratórios, todo mundo gostava de me incomodar, mas quando eu chegava em casa, meu irmão me dava um espaço para conversar com ele, e eu adorava isso, ficávamos horas conversando, ele me contava suas histórias e era meu melhor amigo , e único também, e eu gostava de tudo nele, tudo que ele fazia, eu fazia também, se ganhássemos chocolate e ele guardasse o dele, eu fazia de tudo pra guardar o meu e só comer quando ele comesse o dele, se andávamos na rua e ele chutasse uma pedra, eu chutava outra, eu queria ser ele, também queria ser alguém especial.
Durante anos foi assim, até que ele começou a ficar nervoso, e gritava muito, eu tinha tanto medo que eu tampava os ouvidos e rezava muito pedindo pra parar, minha mãe também não entendia, ele saía muitas noites , mas a maior parte do tempo estava chorando em casa, já não trabalhava bem, não se cuidava mais, e eu fui vendo tudo isso sem entender, achando que ele estava brincando e que tudo ia passar, mas ao invés disso, só foi piorando , e a pior coisa que existe é ver seu herói pessoal cair sem ter forças para pelo menos tentar ajudar ele a se reerguer, eu ainda não sabia muito bem das coisas, como ficava mais em casa , saindo só para ir a escola e sem amigos , eu não tinha conhecimento de nada, além de matérias de escola, livros que eu lia e dinossauros ( eu sempre gostei de dinossauros), quando fiquei sabendo que ele fumava e vi minha mãe chorando eu fiquei triste, eu não gostava que minha mãe fumasse, e sabia que não era legal , pelo menos aquilo eu sabia. Mas depois de um tempo foram vindo as outras verdades, a da maconha de cada dia e a bebida, o diagnóstico médico foi esquizofrenia, ele andava completamente insano pelas ruas, e ao invés de admiração, passei a ter vergonha do meu herói, medo também, eu apanhava sem saber o porque, via as coisas sendo jogadas para o alto, sendo quebradas e depois de um certo tempo passei a odiar ele por fazer minha mãe chorar.
Durante o tempo em que ele estava na clínica para doentes mentais, eu ouvia tudo o que ele fazia e falava lá, decidi visitá-lo,e chegando lá ele me abraçou mas depois começou a me xingar e ficar alterado, saiu e me deixou lá, fui amparada pela minha mãe e voltei pra casa, triste, porque meu irmão me odiava e no fundo eu só o odiava por amar demais e não agüentar aquela situação.
Ele saiu e passou algumas semanas em Portugal,perdeu o visto e foi deportado da Inglaterra, e eu que já não tinha amigos, não falava e não saía , perdi os poucos que tinha conseguido na escola, e já não queria mais comer, estudar, que era a coisa que eu mais gostava de fazer não me interessava, ler sobre dinossauros também não .. enfim, já não queria mais nada, repeti um ano escolar , fiquei irreconhecível , abatida, mas sorria e passei a ficar mais carinhosa com minha mãe, ela precisava de saber que eu ainda estava ali para poder continuar, para ter um motivo para não desistir do Meu irmão, "lidei com coisas que jamais entenderei", e penso ainda que eu fiz alguma coisa, que a culpa pode ser minha, tento achar alguma explicação e também tento achar um motivo para ter sido com ele e não comigo, por ele eu chegaria a Deus e diria: Por favor, cura ele .. faz tudo ficar 3 vezes pior em mim, mas salva ele desse sofrimento todo, ele não merece isso.
Hoje estou mais forte , ou pelo menos aparento, mas choro muitas noites, nunca mais consegui ter concentração para estudar e para qualquer outra coisa, minhas notas só caem cada vez mais por mais que eu tente, fico preocupada com minha mãe, com ele , e me sinto egoísta por não estar lá ,por ter fugido de forma covarde para morar com meu tio e evitar tudo aquilo que eu sei que ainda acontece.
Passaram-se mais ou menos 6 anos,as drogas estão mais pesadas, todos os tratamentos psicológicos ignorados, e naquele corpo, já não consigo mais ver o meu irmão, meu herói, meu exemplo, só vejo uma coisa disforme, sem vida, alguém sem alma. Odeio estar perto dele, eu o amo tanto que sua presença me deixa triste e me faz pensar: E se eu achar uma forma de fazer ele voltar ao normal? Para perceber que não há soluções a não ser que ele queira e tenha uma força proporcional à vontade de tentar se libertar disso tudo e ser feliz de novo.
Sempre fui tão fria com minha família em geral, que hoje o que eu mais penso é que se ele morrer algum dia, vai morrer pensando que eu não gostei dele, acho que se algum dia, eu conseguisse soltar tudo que está preso em mim durante todo esse tempo eu conseguiria falar o tanto que o amo, perguntar o Porquê, e dizer que perdôo todas as coisas erradas que ele fez comigo, as palavras ruins que me disse e que quero estar do lado dele sempre, para ajudar e recuperar todo o tempo perdido com frases mais bonitas, abraços e sorrisos, mas é difícil demais aprender a falar que se ama , quando nunca se pratica , e vivo assim, lembrando do meu irmão de verdade, do sorriso, dos dias felizes e daquele menino alegre com um brilho incomum nos olhos, inteligente, com planos para o futuro . As lágrimas caem,nunca toco no assunto porque sei que isso vai acontecer e prefiro não mostrar pra ninguém o quanto frágil eu sou , mas junto às lágrimas aparecem os breves sorrisos de saudade, de saber que já existiu alguém naquele corpo .Mas quando ele está perto, não olho nem na mesma direção em que ele esteja, porque não quero ver o que hoje pensam ser meu irmão, mas não é.
Um dia vou acordar desse pesadelo, e vamos estar felizes jogando futebol no sítio da família...
Tudo estará bem ... =)
Ps: Preciso secar as lágrimas, hoje ele vai dormir aqui em casa e está chegando com o meu tio e não pode ver isso, é até bom, senão eu não sei até quando ia escrever, é uma das primeiras vezes que falo quase tudo sobre ele.
“ Eu ouvi dizer que só era triste quem queria”
Será que ele quis isso?
Reflitam,
Com amor
Helena.
- Helena Fernanda
- "Chorar por tudo que se perdeu, por tudo que apenas ameaçou e não chegou a ser, pelo que perdi de mim, pelo ontem morto, pelo hoje sujo, pelo amanhã que não existe, pelo muito que amei e não me amaram, pelo que tentei ser correto e não foram comigo. Meu coração sangra com uma dor que não consigo comunicar a ninguém, recuso todos os toques e ignoro todas tentativas de aproximação. Tenho vergonha de gritar que esta dor é só minha, de pedir que me deixem em paz e só com ela, como um cão com seu osso.A única magia que existe é estarmos vivos e não entendermos nada disso. A única magia que existe é a nossa incompreensão." Caio F. Abreu
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